Há sons que ninguém esquece. O chamado da mãe para ir comer, o primeiro choro de um filho, a porta de casa fechando quando alguém parte. Nunca descobri se foi o silêncio daquele velório ou a primeira nota da corneta que me devolveu à infância. A memória nunca me contou essa história na ordem em que ela aconteceu.
Sempre começou pelo silêncio.
O clique metálico das travas de um velho estojo de corneta. Foi esse último som que me devolveu quarenta anos de uma única vez.
O velório tinha aquele silêncio de auditório vazio. O salão estava impregnado com o cheiro das flores campânulas e da cera das velas. Ainda não consigo sentir esse perfume sem retroceder à escola. As campânulas floresciam sempre no canto da quadra de esportes, coladas às torneiras. Exatamente quando setembro chegava e os ensaios da primavera se intensificavam.
Naquele tempo eu pensava que elas apenas enfeitavam o lugar. Considero que anunciavam o começo de alguma coisa que ainda viveria dentro de nós por muitos anos.
Ali espalhados, entre as coroas de flores, viam-se homens e mulheres que já haviam cruzado a barreira dos trinta, mas ainda não se rendiam completamente aos cinquenta, suas feições revelando as histórias de décadas e a distância da juventude.
O tempo havia substituído o uniforme colorido e brilhante que usávamos quando ainda estávamos juvenis por roupas bem recortadas e escuras, apropriadas para este último encontro. Por um instante, tive a impressão de que ainda conseguia vê-los como antes. Não nas roupas escuras que vestiam agora, mas nos uniformes que pareciam fazer parte do corpo, com os detalhes dourados capturando a luz e as barretinas com as plumas brancas marcando de longe quem éramos.
Havia alguma coisa naquela roupa que nos fazia parecer maiores do que realmente éramos. Talvez porque, dentro dela, ninguém caminhava sozinho. O uniforme não vestia apenas o corpo. Vestia também a sensação de pertencer.
E, de fato, havia momentos únicos, outrora unidos pelos naipes de seus instrumentos, que pareciam agora tocar palavras balizadas na mesma nota. Uma harmonia externa que mal disfarçava a dissonância interior. A postura da maioria denunciava um vazio profundo, a monotonia que, sem dúvida, havia se instalado na vida desses adultos.
Refleti, então, sobre nossa passagem de infância e juventude: a vivacidade e o propósito que a música nos concedia àquele período haviam se dissolvido, engolidos pela complexidade e pelas responsabilidades implacáveis da vida adulta.
Era como se a melodia de suas existências tivesse sido silenciada há muito, substituída por um ritmo monótono e sem paixão, decompondo-os em si mesmos, à espera de uma nota que os fizessem vibrar novamente.
Alguns traziam fios grisalhos nas têmporas e marcas de expressão que falavam de carreiras burocráticas ou de vidas distantes da música. Olhavam-se com uma curiosidade hesitante, tentando encontrar, por trás das rugas, dos óculos ou da mudança dos anos em suas fisionomias, os adolescentes que um dia dividiram estantes de partituras, naipes de percussão e sonhos nas ruas das cidades por onde se apresentaram.
Mas ninguém encontrava ninguém.
Permanecíamos estranhos unidos por um caixão fechado e por um nome.